Autor:
Carlos Caetano
Universidade
Lusófona de Humanidades e Tecnologias
Resumo
O
presente estudo teve como objectivo a realização de uma análise que demonstre
quais os factores de convergência/divergência entre treinadores e jogadores em
relação às competências e formas de escolha do capitão de equipa.
A
recolha de informação, necessária para a realização deste trabalho, foi
efectuada através da aplicação de um questionário que teve por base uma amostra
de 150 praticantes de Basquetebol de escalões de formação e 20 treinadores.
Os
resultados obtidos demonstram que neste estudo não foram encontradas diferenças
significativas nos dois grupos estudados, relativamente às hipóteses colocadas.
Assim,
tanto treinadores como jogadores consideram as funções ligadas à motivação como
sendo as de maior importância, bem como referem a opção “Votado pelos atletas e
treinador” como sendo a mais correcta na escolha de um capitão de equipa.
Introdução
O
capitão de equipa tem um papel vital na concepção de desporto moderno, ou seja,
deve ser o elemento motivador e representativo do treinador dentro do campo,
bem como alguém que aceita responsabilidades e assume posições de liderança. No
entanto, são quase inexistentes os estudos que analisam o papel desempenhado
pelo capitão de equipa, a sua importância e os critérios adequados para a
escolha do mesmo.
Sendo
o treinador de uma equipa o seu líder indiscutível, existem porém outros
líderes formais, nos quais se inclui o capitão de equipa, que representa um
papel fundamental no seio de um grupo.
A
relação entre estes dois líderes (capitão e treinador) é abordada por Curado
(2002) que defende a necessidade de ter que existir um total clima de confiança
entre ambos.
São
vários os autores que exprimiram as suas opiniões acerca das funções e competências
que este elemento deve possuir para ser “um correcto capitão de equipa”, ora
vejamos:
Segundo
Messina (1968) o termo capitanear significa de imediato: liderança, responsabilidade,
integridade, honra e respeito. Sendo as suas responsabilidades gerais divididas
entre: 1 - O capitão deve sempre lembrar-se que foi escolhido porque a equipa o
respeita e quer que seja ele a liderá-la; 2 - Ele é o responsável pela condução
do grupo dentro e fora do campo; 3 - É também o responsável pelo moral da
equipa dentro e fora do campo, nunca devendo dar sinais de desencorajamento; 4
- Quando surgem problemas no interior do grupo (treinos ou jogos) deve procurar
resolvê-los de imediato, antes de ter que recorrer à equipa técnica; 5 - É
obrigação do capitão representar qualquer elemento da equipa que tem
determinado problema e expressar os seus pontos de vista à equipa técnica.
Seguindo
um pensamento semelhante, Jay Mikes (1987) afirma que o capitão de equipa deve
ser consistente, capaz de ajudar a equipa nas várias fases do jogo e em cada
jogo, tendo que possuir permanente domínio sobre a concentração, compostura e
confiança, factores que são determinantes para a obtenção de resultados
positivos em competição.
Deverá
sempre revelar-se um líder altruísta e ser capaz de dar o seu melhor contributo
debaixo de pressão e nas fases cruciais dos jogos. Os seus atributos físicos e
a forma como cuida de si e do seu corpo, procurando estar sempre em grande
forma, demonstrando um enorme prazer pelo jogo, deve ser a sua “imagem de marca”.
Teotónio
Lima (1993) dá o exemplo de alguém que verdadeiramente desempenhava na perfeição
o papel de capitão de equipa, e define-o como sendo um grande motivador porque
treinava com entusiasmo e um grande empenho físico que contagiava os seus companheiros
de equipa. Foi um capitão que, em jogo, dava o tom na defesa e no ataque, isto
é, era um jogador que defendia com agressividade e que atacava com serenidade.
Sabia ler o jogo, e procurando conhecer a sua modalidade por dentro apoiava os
mais novos, os «recrutas», que se juntavam à equipa.
Era
um líder que se preocupava com a unidade da equipa e que como jogador conseguia
ter a sua própria vida organizada de modo a estar disponível para dinamizar o
espírito de grupo, mesmo para além dos treinos. Tinha uma qualidade rara,
indispensável para desdramatizar situações delicadas na dinâmica do grupo – um
sentido de humor, que sabia usar quando uma boa gargalhada constituía o remédio
adequado para aliviar as «nervoseiras» que antecedem os jogos decisivos ou para
pôr as coisas no lugar próprio depois de uma derrota decepcionante.
Enquanto
capitão assumia, por sua iniciativa, o papel de elo de ligação humana entre os jogadores
e o treinador, procurando criar e organizar situações de convívio que eram sempre
bem conseguidas, bem como sabia definir e assumir a atitude a tomar em relação
ao jogo, à arbitragem, aos dirigentes e até aos adeptos do clube.”
Na
opinião de Tomáz Morais (2003) as funções de um capitão nunca poderão somente passar
por este ser um mero representante da equipa para falar com o árbitro, escolher
o campo, cumprimentar e entregar o galhardete aos adversários ou mesmo fazer o tradicional
discurso após o jogo.
Segundo
este treinador o capitão de equipa deve funcionar como um elo de ligação da equipa,
pelo que se deverá ter em conta a sua capacidade de interacção com os outros jogadores
de forma a garantir a efectiva transmissão de metodologias, estratégias e conceitos.
Existem
alguns factores relacionados com as competências de um capitão de equipa que tem
sido alvo de análise por diversos autores, entre os quais podemos salientar:
A liderança
– uma vez que é o capitão que assume este processo, comandando a equipa e
também tomando decisões que surgem inúmeras vezes durante o desenvolvimento de uma
partida, sendo também alguém de grande atitude positiva, que dirija e lidere
com naturalidade.
Segundo
Teotónio Lima (1984) o capitão de equipa só poderá exercer uma liderança autêntica,
legitimada por um estatuto de autoridade, se:
- For
escolhido e designado pelos membros da equipa;
- For
um atleta de valor superior à média dos membros da equipa;
- Transmitir
à equipa a sua experiência de atleta e aquilo que sabe das actividades concretas
e afins da prática da modalidade;
- Tomar
decisões e tiver intervenções sobre o comportamento dos seus companheiros de
equipa;
- For
reforçado o seu estatuto de autoridade por parte do treinador.
A motivação
– da equipa é um dos seus papéis primordiais, tendo que evidenciar a profundidade,
a força e o potencial do seu carácter e da sua personalidade, mantendo sempre
boas relações dentro da mesma, demonstrando uma correcta postura, atitude e disponibilidade;
A comunicação
– sendo o capitão de equipa o elo de ligação de todos os atletas com o próprio
grupo, com a equipa técnica e dirigentes, este deve saber transmitir, aos novos
elementos que sejam incluídos no grupo, quais as regras, comportamentos e
filosofia a adoptar para uma adequada integração.
Pedro
Alvarez (2003) afirma que durante os jogos “…cabe ao capitão informar aos
companheiros sobre as indicações dadas pelo treinador e informar o treinador
sobre situações que ocorrem dentro do campo e que este poderá não perceber
devido à distância a que se encontra. O saber contactar com os árbitros é
decisivo para um capitão de equipa, principalmente na forma como e quando devem
comunicar com eles…”
A organização
– tem que estar sempre presente nas características de um capitão, de acordo
com Messina (1968) este líder, para além ser um elemento dedicado e responsável,
deve ter métodos e técnicas que o tornem organizado em todas as tarefas ligadas
à sua modalidade específica.
Nos
diversos artigos de opinião sobre este tema, “capitão de equipa”, surge-nos
várias vezes mencionada uma outra questão de elevada pertinência – A forma mais
adequada de escolha do capitão. As opiniões dos vários autores abordam as
várias hipóteses de decisão inerentes a esta escolha, mas divergem muitas vezes
de modalidade para modalidade e de treinador para treinador.
Jack
Sheedy (1980) defende a ideia de que o capitão é normalmente escolhido por ser
o melhor jogador, o mais extrovertido e comunicativo, o que ocupa
posições-chave na constituição da equipa, o com mais maturidade ou o mais
antigo no plantel/clube.
Por
outro lado, Jerry Cougill (1968) refere que um papel de tanta responsabilidade como
o de capitão de equipa não pode resultar de uma simples eleição, mas sim da escolha
directa do treinador, pois este saberá melhor quais os requisitos necessários
ao desempenho desta função do que maioria dos membros da equipa.
Para
Manuel Cajuda (2003) a escolha deste líder deve ter por base questões como: a antiguidade,
a competência técnica, física, táctica, psicológica, social e cultural; a honestidade
profissional; ser conhecedor da “mística ou doutrina” do clube e um líder reconhecido
pelos outros através das suas reais capacidades.
Luís
Magalhães (2003) começa por afirmar que “ser capitão de equipa não é apenas uma
mera formalidade”, por isso escolhe jogadores experientes para liderarem a
equipa.
Na
opinião deste treinador profissional o cargo em análise é demasiado importante
para ser encarado com alguma distância. Assim, no seu ponto de vista não
deverão existir eleições, nem antiguidades ou outra qualquer situação, que não
seja a escolha criteriosa da sua parte, no sentido de escolher bem um líder, um
elemento exemplar, experiente, com carácter e que desempenhe com qualidade e
competência as suas funções.
No
seu artigo Pedro Alvarez (2003) considera que a escolha do capitão de equipa
deverá assentar sobre comportamentos sociais e valores morais, não sendo o
rendimento desportivo uma característica essencial para o desempenho deste
cargo nos desportos colectivos. Segundo este autor o comportamento social
dentro e fora do treino deverá ser determinante para a sua eleição. Alguns
princípios elementares destacados por este autor como: a assiduidade e a
pontualidade ao treino, uma constante atitude positiva perante o treino, ao
nível da aplicação e da superação das dificuldades colocadas pelo treinador, e
a capacidade de diálogo com os adversários e árbitros (principalmente em situações
de maior pressão competitiva).
Assim,
este treinador de escalões de formação, defende que “a eleição do capitão de equipa
deverá ser livre, mas orientada”, devendo a sua escolha ser o resultado de um processo
democrático dentro de um grupo, no qual o treinador poderá interferir subtilmente
ou não.
Na
opinião de Tomáz Morais (2003) a escolha do jogador para assumir esta difícil e
permanente tarefa, de capitão de equipa, tem de ser bastante criteriosa e
cuidada.
Considera
que nos desportos colectivos, de uma forma genérica, o capitão é escolhido consoante
as características de cada modalidade e segundo algumas tradições, como por exemplo:
o jogador com mais idade, o mais antigo no clube, o mais internacional, a “vedeta”,
o jogador mais “querido” pelos outros jogadores, etc.
Na
sua perspectiva qualquer destas alternativas é aceitável desde de que se cumpra
o principal objectivo – “o sucesso da equipa – no qual o capitão tem que, por
si só, constituir uma mais valia”.
Método
Foram
inquiridos 170 sujeitos, sendo 150 praticantes de Basquetebol federado (90 atletas
masculinos e 60 femininos, pertencentes a 15 equipas) do escalão de cadetes (idades
compreendidas entre 14-16 anos) e 20 treinadores de escalões de formação.
Para
a realização deste estudo foi aplicado um questionário composto por 16
afirmações referentes às competências do capitão de equipa, através das quais
se pretendia que os inquiridos se identificassem com maior ou menor
concordância, e por uma pergunta de resposta fechada sobre a forma mais
correcta para proceder à escolha do mesmo.
As
16 questões foram avaliadas numa escala de Likert de 4 pontos estando divididas
em quatro dimensões: liderança, motivação, comunicação e organização.
Procurou-se
assim verificar a validade de duas hipóteses: 1) As competências mais relevantes
de um capitão de equipa diferem entre treinadores e jogadores; 2) A forma de escolha
do capitão de equipa difere entre treinadores e jogadores.
Resultados
As
hipóteses testadas por este estudo não se confirmaram, uma vez que não se encontraram
diferenças significativas nos resultados apresentados pelos dois grupos relativamente
às funções de maior importância atribuídas ao capitão de equipa e à sua forma
de escolha.
Ambos
consideraram as funções relacionadas com a Motivação (Treinadores: 3,59; Jogadores:
3,26) como sendo as mais preponderantes, bem como, em relação à opção apontada
como a mais correcta na escolha do capitão de equipa -“Votado pelos atletas e treinadores”
(39,4%), que foi igualmente a mais referida por jogadores (40,0%) e treinadores
(35,0%).
No
entanto, relativamente à pergunta sobre a forma mais correcta para proceder à escolha
do capitão, verificou-se ainda a existência de alguma divergência nas respostas
apresentadas, uma vez que os jogadores, ao contrário dos treinadores, referem
quase a totalidade das opções (dez das doze apresentadas), dando mesmo algum
peso (7,3%) à forma de escolha do capitão de equipa através de “sorteio entre
jogadores”.
Conclusões
A
opção escolhida por treinadores e atletas como sendo a forma mais correcta de escolha
de um capitão de equipa (“votado pelos atletas e treinadores”) é divergente da maioria
das opiniões dos autores citados, que são na sua totalidade treinadores.
Se
em relação aos jogadores parece normal a escolha recair nesta opção, pois
possibilita expressarem as suas opiniões, por outro os treinadores contrariam a
posição dos autores citados, quando estes referem que não se deve recorrer a
qualquer tipo de eleição para proceder a esta escolha.
A
razão que explica esta divergência prende-se com o facto de este estudo ter
sido dirigido exclusivamente a treinadores de escalões de formação.
Assim,
propõe-se a aplicação deste estudo em diferentes escalões, verificando as diferenças
entre os escalões de formação e o escalão de seniores, bem como a sua realização
nos diversos desportos colectivos.
Deverá
ainda analisar-se de que forma os treinadores preparam o seus atletas tendo em vista
a aquisição das competências necessárias para o desempenho desta função.
Referências
Bibliográficas
Alvarez,
P. & Cajuda, M. & Magalhães, L. & Morais, T. (Agosto 2003). A
escolha do capitão. Treino Desportivo, pág. 34-39.
Curado,
J. (2002). Organização do treino nos desportos colectivos, pág. 135-141. Editorial
Caminho, SA.
Lima,
T. (1993). O capitão. O Treinador nº16, pág.16.
Montero,
Alberto (Agosto 1999). Educación Física y Deportes. Revista Digital, Ano IV, nº15.
Sports Coach, (1980). Vol. 6,
nº4, pág. 28.
The
Athlectic Journal, (Maio 1968).
Ucha,
Francisco (Março 1999), Educación Física y Deportes. Revista Digital, Ano IV, nº13.
FONTE: Artigo gentilmente enviado por Andreia
Barata (Treinador e jogadora de Hóquei em Patins)














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